Este foi meu último ensaio do curso de Letras – Bacharelado na UFRGS, finalizado no primeiro semestre de 2011, mais precisamente no dia 12 de julho. A cadeira de Mitos Portugueses foi ministrada pela Profa. Ana Lúcia Liberato Tettamanzy, e o objetivo do ensaio era discorrer sobre o mito e as considerações identitárias do povo português dentro da obra. Espero que gostem, e comentem!
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Introdução
A obra do biólogo e ex-jornalista Mia Couto toma o mitológico[1] como recurso para narrar a história triste de uma África deturpada pelos abusos dos que lá exploraram. As guerras, sempre estimuladas pelo Ocidente, prosseguem sua violência no íntimo dos que hoje vivem, independentemente dos credos, das raças, e como magistralmente aborda Mia Couto, das cores da alma.
Neste ensaio, a extinção da entidade sombria do colonialismo português é projetada em alguns dos personagens centrais de O outro pé da sereia (2006). O discurso gira em torno de como a noção identitária se representa e se deixa exposto nestes personagens: a protagonista e ponte de comunicação entre as duas épocas e, exponencialmente, entre este e o além-mundo, Mwadia Malunga; o afroamericano em busca da identidade perdida nas terras de origem de seu povo, Benjamin Southman; o ex-pugilista derrotado no ringue da vida, Zeca Matambira; e o padre questionador de sua própria missão enquanto cristianizando uma Moçambique do século XVI, Manuel Antunes.
Interligando duas épocas através de uma das mais belas formas de literatura, Couto retrata, num misto de realismo mágico e ficção histórica, a existência de um povo que não foi apenas punido pelo outro, mas desarraigado de si mesmo e por si mesmo ao longo dos séculos.
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Sentimentos de Inferioridade: redescobrindo a identidade roubada
A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós
(Nimi Nsundi em carta a Dia Kumari – COUTO, p.207)
Ao se deparar com o livro em uma primeira instância, o leitor se coloca na expectativa de encarar uma África similar a que o espião americano da história espera ser sua terra de origem e salvação: uma terra de miséria, as cicatrizes ainda a sarar, a infelicidade propagada em nome da fé, as crendices da população tão vitimada. É indiscutível a gravidade que o colonialismo português imprimiu na geografia africana. No entanto – aqui focando a nação de Moçambique –, mais de trinta e seis anos após a independência, quais são os resquícios de tamanha exploração do íntimo dos cidadãos de terra tão distante?
Em um misto de poesia e lirismo, Mia Couto constrói uma narrativa rica em analogias, ironias e metáforas da vida e da morte. O autor consegue, sem criticismo direto, abordar não apenas as manchas na história esquecidas no antigo, no que de certo modo ficou para trás e enclausurado na memória, mas também retratar a presente existência de uma geração pós-colonialista. Como apontado por Carreira (s.d.) em sua análise do livro, “O autor vai além de questões político-sociais contemporâneas, partindo da premissa de que é preciso que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças”.
Deste modo, seguem-se algumas análises sobre quatro dos personagens da trama de O outro pé da sereia, e como cada um deles se observa e busca se autodefinir na identidade de ser humano.
Mwadia Malunga
Porta-voz da história dividida em dois tempos, mas alinhada ao tempo que não se mede (internalizado), Mwadia utiliza-se do rio da vida para buscar não apenas um abrigo para a santa sereia, mas o seu próprio espaço resguardado no passado. Saindo da terra inventada de Antigamente, Mwadia retorna a Vila Longe só para descobrir um vilarejo em esqueleto, onde o cemitério não é mais morto do que a própria igreja; onde os olhares de seus parentes que ainda habitam por lá não são menos vazios do que aqueles encontrados nas paredes dos “ausentes”.
Em suas deambulações pela cidade, à cata de suas memórias, Mwadia percebe situações anormais: cães assustados à sua passagem; pessoas cujo reflexo ela é incapaz de ver no espelho; a sensação de irrealidade ao contemplar o padrasto que a esperava do lado de fora da alfaiataria; a sua surpresa ao ouvir o chefe da estação afirmar que ela estivera ali na semana anterior, quando partira há tantos anos
(CARREIRA, s.d.).
Não encontrando um santuário digno para guardar a estátua da santa, Mwadia deposita-a em seu quarto para então correr atrás de sua própria história, de seu próprio abrigo no seio da família. Atabalhoada pela situação decadente da mãe Constança, da impassibilidade do padrasto Jesustino, pela “morte sem ida” da tia Luzmina, Mwadia tenta recompor-se através da história. Ao ser convocada para interpretar mais uma das excentricidades da África que Casuarino insistia inventar, a moça descobre seu dom de mediar a conexão com os antepassados dos vilalongeanos, esclarecendo a trajetória daquela santa abençoada tantos séculos antes.
[...] Mwadia, cujo nome significa “canoa”, é o veículo que transporta um elemento cultural que é, simultaneamente, unificador e divisor dos seres humanos na terra, [...] não só de um lugar para outro – da aldeia de Antigamente, onde vive com o marido (ou a sua sombra) para Vila Longe, uma aldeia semi-morta onde habitam os seus parentes e conhecidos – mas também de uma época, do longínquo século XVI, para o século XXI
(DIAS, 2010).
Só quando Mwadia reconhece tamanho poder que carrega em si e enxerga a verdade de sua terra é que adquire a sabedoria necessária para guardar a santa no abrigo perfeito: onde sempre estivera, à beira do rio; e dentro do coração, como fonte de fé. “E Mwadia continua, no tempo presente, a desempenhar o seu papel de mensageira atravessando o rio do Tempo. Ela é a canoa que transporta a memória de um povo” (DIAS, 2010). Sua identidade, no fim das contas, caracteriza-se por ser aquela que lê e percebe a história de seu povo.
Benjamin Southman
O contexto da viagem, eixo temático deste romance, e, principalmente, do intertexto histórico, equivale às viagens interiores das personagens em busca de si mesmas, transcendendo o relato que busca explicar o reaparecimento da imagem [da santa] em 2002, e remetendo a muitas outras viagens no outro plano da história
(CARREIRA, s.d.).
Um homem em busca da identidade perdida. Um homem que vive distante da terra natal, mas próximo o bastante do orgulho de ter a pele escura que tem, mas não do espírito que porta. É atrás dessa espiritualidade que Benjamin parte para Vila Longe, custeando o que custar no resgate de uma essência mítica que pudesse reformar seu interior.
Classificando-se como um “afroamericano”, Mr. Southman faz a viagem do retrocesso: a salvação encontrada na origem, no berço de sua genealogia. Ao pousar em terras africanas[2] junto da brasileira Rosie, Benjamin encontra a verdade, o que não lhe deixa confortável dentro de si mesmo: já não era mais quem pensava ser. Tinha sangue moçambicano, mas sangue indiano também. Era África, era Ásia e América. Tão confuso ficou que se sumiu no mundo, possivelmente caçando de maneira infinita a identidade que pensava ter perdido, e que por este pensar, a perdera por definitivo. Benjamin Southman representa os que indignam-se com a ausência de autorreconhecimento identitário, que não sabem constatar que sua identidade reside nessa miscigenação, provém dessa história escrita por tantas mãos de cores e crenças variadas; entretanto, sua verdadeira história.
Zeca Matambira
Ex-pugilista de sucesso questionável, Zeca admite que nunca derrotara um oponente que fosse branco ou mesmo mulato: só era capaz de derrotar um semelhante na pele. Por herança histórica, Matambira apreendeu o sentimento de inferioridade que sua pele carregava mesmo agora. Como expõe Dias (2010), ao ser derrotado pela vida imposta já a seus antepassados, ele não encontra lugar algum no mundo, permanecendo em um nexus na figuração que os correios de Vila Longe representam. “Quanto a Zeca Matambira o principal problema é o da adaptação, num mundo onde ser-se mulato é quase garantia de exclusão, uma vez que pessoas como ele não perecem enquadrar-se totalmente nem num lado nem no outro” (DIAS, 2010).
De rosto eternamente colado na lona de sua terra convalescida, Zeca Matambira é o retrato do ex-colonizado que nunca soube encontrar-se, definir-se, mas que talvez, apesar de tudo, vivera, ainda que em precária subsistência.
Manuel Antunes
Um jovem padre com a ordinária missão jesuítica, porém com convicções engrandecidas por diferentes espiritualidades. Padre Antunes redescobre-se no percurso que o guiaria a uma terra a ser explorada, a começar pela religiosidade. Em um tempo que, supostamente, carregaria crendices de que as coisas funcionavam de forma diferente, os questionamentos do homem Antunes são similares àqueles dos que eram então escravos, condenados servos da “fé da salvação eterna”. Se aos escravizados a situação identitária pudesse até mesmo ser riscada, como um rasgão de açoite ou embaciada pelo suor do trabalho forçado e remunerado apenas com sofrimento e ingratidão, ao padre, que se julgava cada vez mais negro e prisioneiro de sua própria fé, restava lançar ao fogo os registros que construíam o papel catequizador do indivíduo Manuel e lavar-se na liberdade da tentativa de se redefinir.
Mia aponta para este período [1560] como fundador da identidade africana, mas não para pensar num paraíso negro anterior à presença do branco nem para sugerir o pacifismo da raça negra, e sim para mostrar como a mistura estava acontecendo já àquela época com a presença de indianos, de tribos diversas e cultos diversos ao longo do enorme continente
(SPALDING, 2006).
Desse modo, Spalding argumenta que o colonialismo foi, em suma, um processo necessário para a globalização que já se desenvolvia no mundo antigo. Sendo aquele que questiona antes mesmo de virar incógnita, padre Antunes reflete a imagem do colonizador que enxerga-se no diverso, encontra-se na essência do outro, e assim, a si mesmo. Só livre da cruz cristã que ele acaba por encontrar sua nova identidade, presenteando-se com um novo nome, fazendo parte do próprio processo colonizador que auxiliara a protagonizar.
Conclusões
O outro pé da sereia é, afinal, o que propõe ser a partir do contexto histórico que lhe serve de base: um livro de viagens. Viagens entrecruzadas, nas quais a questão da identidade não é ponto de partida ou de chegada; é o caminho
(CARREIRA, s.d.).
O caminho. Na reta final da narrativa de Mia Couto, os únicos mistérios a serem desvendados é saber quem de fato são aquelas pessoas que se perderam na vida e apaziguaram-se numa existência irreal, em suas questionáveis identidades que só tinham face na parede dos ausentes, sem base sólida como sendo os indivíduos que ali viviam ou teriam vivido.
A riqueza de O outro pé da sereia está na complexidade de cada personagem, e na busca literal, física; ou espiritual, metafórica, que cada um deles realiza ao longo da obra. Couto fez um trabalho excepcional ao construir tal literatura baseando-se nos firmamentos de uma nação que tenta a todo custo conciliar as diversas etnias em uma mesma nacionalidade. Como mostra a personagem brasileira, Rosie, o questionamento de quem sou? faz parte de toda e qualquer pátria, e cede às arestas da cidadania, acabando por permear nas faces do ser mulher, do ser mãe, do ser vivo imparcial à pele que cobre o corpo. Afinal, brasileiros também vivem uma pós-colônia, e descobrir-se acaba sendo um processo que vai muito além do desvendamento de uma linhagem; talvez por isso seja que muitos se esquecem de quem foram seus antepassados, do que sofriam e o que almejavam eles, e buscam novas fronteiras por serem, essas, mais claras à percepção, mais tangíveis pelas possibilidades atuais.
(…) esquecer o passado torna-se a única forma de suportar as dores e não abrir ainda mais as feridas, pois os africanos seriam obrigados a reconhecer, por exemplo, que não apenas os brancos escravizaram e mataram os negros como também os negros escravizaram e mataram os próprios negros
(SPALDING, 2006).
A obra de Mia Couto irrevogavelmente ilustra a autoflagelação do povo moçambicano; fato que é, afinal, característico do ser humano. Mesmo reconhecendo-se historicamente os açoites de determinadas raças etnocêntricas sobre outros povos classificados por inferiores e selvagens, não é alheio ao homem o conhecimento de que somos, sim, de alguma forma culpados por nossas próprias desventuras ao longo de nossa história, como comunidade e como ente particular – como retratado no vilarejo de Longe e nos indivíduos que lá teimavam em assombrar.
Se “A viagem termina quando encerramos as fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar” (COUTO, p. 329), teria a jornada daqueles personagens se encerrado? A quem caberia recordar a significância de suas vidas, se nem mesmo eles puderam estabelecê-la? Seria a identidade de cada um deles apenas um excerto imaginário de um povo que apenas sonha?
Ao longo do romance, percebe-se claramente a imbricação entre o real e o imaginário, entre o fantástico e a realidade, que, segundo o próprio autor, é algo completamente presente na realidade moçambicana, que é regida segundo uma outra ordem de racionalidade (CARREIRA, s.d.).
Resta saber reconhecer nosso trilhar, fazendo escolhas cientes de que o próximo passo depende exclusivamente de “eu como ser do mundo”, originado da mesma água que gera vida ao tempo – um tempo por onde passam os caminhos e percalços de africanos, afroamericanos, todo o tipo de comunhão racial que o mundo globalizado (e a literatura, quiçá) permitir. É preciso cortar o pé da sereia e deixá-la nadar livremente; talvez deixando, enfim, um dos pés ainda arraigado. Mas que isso não impeça novas viagens, novas (re)descobertas internas.
Todos compartilham de alma. E como Mwadia, só se consegue escolher o caminho quando existe o autoconhecimento.
Fontes
CARREIRA, Shirley de Souza Gomes. O outro pé da sereia, de Mia Couto. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, Unigranrio. In: Passeiweb – Seu portal de estudos na internet (site), s.d. Disponível em: <http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_ comentarios/o/o_outro_pe_da_sereia>.
COUTO, Mia. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 5ª reimpressão, 2010. 336 p.
DIAS, Cláudia de Sousa. “O Outro pé da sereia” de Mia Couto (Caminho). HÁ SEMPRE UM LIVRO… à nossa espera! (blog), 24 de março, 2010. Disponível em: <http:// hasempreumlivro.blogspot.com/2010/03/o-outro-pe-da-sereia-de-mia-couto. html>.
OTÍN, Blanca Cebollero. A transculturação em O outro pé da sereia: Uma análise da filosofia do romance de Mia Couto. Revista Crioula, maio de 2008 – Nº 3. Dossiê. In: Faculdade de Filosofia, Letras e Cinências Humanas (site). Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/ dlcv/revistas/crioula/edicao/03/Dossie%20-%20Blanca%20 Cebollero%20Otin.pdf>.
SPALDING, Marcelo. As cicatrizes da África na Moçambique de Mia Couto. Digestivo Cultural (site), 05 de dezembro, 2006. Disponível em: <http://www.digestivocultural.com/colunistas/ coluna.asp?codigo=2127&titulo=As_cicatrizes_da_Africa_na_Mocambique_de_Mia_Couto>.
[1] “No romance de Mia Couto também são os mitos que estruturam o relato e não só como conteúdo ou matéria narrativa, mas também como cosmovisão, como forma de pensar que articula as duas histórias e os dois tempos narrativos” (OTÍN, p. 9).
[2] Teria mesmo Benjamin Southman aterrissado junto da “esposa” em Moçambique? Afinal, como teriam eles interagido com aquele povo que já se ausentara deste mundo, mas hesitavam em partir em definitivo? Foi mais um dos subtextos elaborados por Mia Couto nesta obra. Confesso que a frase presente no capítulo oito: “Sem dar conta, Benjamin fez o sinal-da-cruz” (p. 138) deixou em mim as dúvidas da sobrevivência destes personagens.



























